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Software. Um bom começo... - 10/11/2004

A grande novidade na política industrial  recém-anunciada  pelo governo Lula é o reconhecimento explícito da  importância  estratégica  que  tem  a  indústria  de software para o desenvolvimento sustentado do País. Na lista das prioridades, ela ocupa  a  segunda  posição,  atrás  apenas  da  indústria  de  semicondutores, ganhando até mesmo dos produtos farmacêuticos, da biotecnologia e dos bens de capital.

 

Para um setor que sempre mereceu muito pouca atenção, a mudança é grande.

 

E bem-vinda. Na medida em que o mundo evolui para a chamada "sociedade do conhecimento",  dominar  tecnologias  e  processos  que  permitam  trabalhar  a geração, gestão e transferência do conhecimento de forma eficiente constitui, sem dúvida alguma, o grande diferencial competitivo. Nesse processo, o software é ferramenta essencial. Uma indústria de software forte, capaz de gerar tecnologias inovadoras e, mais, de exportá-las torna-se fundamental, para que o Brasil possa ganhar  competitividade  no  cenário  mundial.  É  essencial  criar  cases  que, guardadas as devidas proporções, projetem a excelência da marca do software nacional, tal e qual o fazem, hoje, a soja e a Embraer com a agricultura e a indústria brasileira de aviação, respectivamente.

 

A mudança de enfoque chega, portanto, em muito boa hora. O que se questiona é a eficácia das medidas. E não em  tom  de  crítica  pela  crítica,  mas  a  título  de colaboração,  aliás,  solicitada  pelo  próprio  ministro  Luiz  Fernando  Furlan, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Na maioria, elas não têm o poder transformação de que precisamos.  E  algumas  ações  do  governo  podem  até mesmo ser prejudiciais à indústria de software.

 

Em  primeiro  lugar,  o  volume  de  recursos  reservados  para  investimento  na indústria de software, de R$ 100 milhões até 2007, é extremamente baixo para estimular de forma expressiva um setor que se caracteriza por projetos com altas demandas de  financiamento,  particularmente  quando  se  trata  de  projeto  de exportação. As  empresas  de  software  do  País têm enorme talento para criar tecnologias extremamente inovadoras.

 

É o caso do sistema de votação eletrônica, que tornou o  processo  eleitoral  bem  mais  confiável e democrático, e, ainda, o modelo que hoje permite a mais de 90% dos contribuintes brasileiros preencher e enviar a declaração de Imposto de Renda via Internet.

 

Esses são dois projetos que incorporam  inteligência  de  software  de  aceitação líquida e certa no mercado internacional. Mas, para exportá-las, as empresas que as assinam precisariam dispor, somente elas,  de  muito  mais  recursos  do  que aqueles oferecidos pelas agências governamentais ao longo dos próximos quatro anos. Para se ter uma idéia de valor, uma única empresa, para lançar tecnologia candidata a liderança nos Estados Unidos, precisará investir pelo menos R$ 100 milhões, segundo algumas daquelas que já viveram a experiência.

 

Mas os problemas com os quais a indústria nacional de software se defronta não se limitam à falta de respaldo financeiro. Contra ela também conspira a pesada carga  tributária,  que  achata  as margens de lucro  e  reduz  a  quase  zero  a disponibilidade  de  recursos  para  custeio  das   atividades   de   pesquisa   e desenvolvimento. Acumulados, os impostos pagos passam de 40%, calculados sobre a receita, contra um máximo de 20% nos Estados Unidos e 15% na Índia, citada como exemplo de eficiência na arte de promover o próprio produto em escala mundial.

 

Mas ainda não é só isso. A Consolidação das Leis do Trabalho, a conhecida CLT, editada no final dos anos 40, foi concebida com base na realidade das relações de trabalho no começo da era industrial. Mais de meio século depois, sem ajustes, é inadequada, sobretudo no  caso  das  relações  trabalhistas  que  se  formam  na indústria de software, e pressupõe encargos que, além de aumentarem o nível de endividamento das empresas, inibem a geração de novos postos de trabalho num País em que a taxa de desemprego atinge nível recorde.

 

Finalmente, na qualidade de maior usuário de software deste mercado, uma das melhores formas de o governo incentivar a indústria nacional é colocar o poder de compra que tem a serviço dela, assumindo a posição de cliente regular. Quanto a isso, é preocupante, contudo, a maneira como a administração pública, em escala federal, estadual e municipal,  vem  orientando  a  política  relativa  à  compra  de produtos e serviços de software.

 

A  opção  clara   é  pelos  programas  de  livre distribuição, o que, algumas vezes, pode fazer sentido, especialmente quando se trata  de  itens  que  estão  virando  commodities  -  caso  típico  dos  sistemas operacionais e editores de texto. Política de inclusão digital baseada em software livre faz total sentido. Mas, quando o governo fala de opção pelo software livre, evasivo, não faz qualquer distinção quanto ao tipo de produto.

 

É grande o número de empresas que estão investindo pesado em P&D para criar produtos de software que viabilizam processos de trabalho mais eficientes, nos setores privado e público. O  resultado  do  trabalho  é  o  software  e,  como  em qualquer  negócio,  elas  precisam  ser  remuneradas  pelo  esforço,  a  fim  de sobreviverem.

 

Se o  governo,  enquanto  consumidor,  volta-se a  priori  para  o software livre, sem analisar cada caso, e incentiva o mercado a fazer o mesmo, pode estar condenando à morte empresas de importância estratégica, que ele deveria preservar e estimular. Empresas que poderiam exportar software na forma de pacotes, gerando mais divisas e prestígio para o País. Não é só isso. O governo pode estar perdendo a oportunidade de utilizar as tecnologias aqui criadas para tornar a máquina pública mais eficiente.

 

A intenção do governo,  de  promover  o  crescimento  da  indústria  nacional de software, dentro e fora do Brasil é excelente. Mas, para isso, terá de se empenhar muito mais do que vem anunciando. O objetivo é nobre. A questão, agora, é discutir se o plano de ação é suficiente para nos levar a atingi-lo.

 

Artigo escrito por André Matos, sócio e diretor executivo da Lumis.



Fonte: Portal E-Contato



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